Bia Kicis, Hermeto, Eduardo Pedrosa, Renata D’Aguiar, Izalci Lucas e outros políticos aparecem nas especulações sobre o comando da Administração Regional do Guará. Mas há um detalhe que torna essa disputa particularmente irônica: a cidade tem uma deputada distrital reeleita que mora nela, conhece seu cotidiano e enfrenta seus problemas de perto. Chama-se Dayse Amarílio. Ainda assim, no fascinante mercado brasiliense de padrinhos políticos, morar na cidade parece não garantir nem preferência na fila.
Se o Guará fosse um imóvel colocado à venda, já haveria uma fila de interessados, corretores disputando comissão e políticos apresentando propostas para administrar o condomínio. Felizmente, a cidade não está à venda. Infelizmente, pelo volume de especulações sobre a próxima Administração Regional, há quem pareça ainda não ter recebido essa informação.
A dança das cadeiras de 2027 mal começou e o Guará já corre o risco de virar o salão de festas da política brasiliense. O repertório inclui amizades pessoais, fidelidade eleitoral, interesses partidários, negociações entre grupos e uma coleção de nomes que, ao que tudo indica, enxergam na Administração Regional uma oportunidade de ampliar seus territórios de influência.
Segundo informações divulgadas pelo Blog do Amarildo, a senadora eleita Bia Kicis desponta como possível madrinha política do Guará em um eventual segundo governo de Celina Leão. A relação pessoal entre as duas e o interesse da governadora em ampliar o apoio da bancada do Senado ajudariam a explicar a movimentação.
Nada de extraordinário até aqui: governos negociam apoio, parlamentares articulam indicações e alianças fazem parte do jogo institucional. A peculiaridade começa quando uma cidade inteira passa a ser tratada como prêmio de consolação, extensão de gabinete ou propriedade simbólica de quem tem mais acesso ao Palácio do Buriti.
Afinal, o Guará virou cidade ou franquia política? Existe algum contrato de exclusividade que os moradores desconhecem? A escritura da Administração Regional está sendo preparada ou ainda falta definir o nome do padrinho?
São perguntas irônicas, naturalmente. Mas a quantidade de especulações sobre quem poderá indicar o administrador torna inevitável uma questão bastante séria: quem está discutindo o futuro do Guará e quem está apenas disputando o direito de mandar nele?
Dayse Amarílio: a moradora da cidade que não deveria precisar de apresentação
No meio desse desfile de pretendentes, um nome merece atenção especial: Dayse Amarílio.
Deputada distrital reeleita, moradora do Guará e única parlamentar residente na cidade entre os nomes mencionados nessa disputa, Dayse tem uma ligação territorial que não depende de agenda eleitoral, visita protocolar ou GPS de campanha. Ela mora aqui. Faz parte da comunidade. Conhece a cidade não apenas como um conjunto de seções eleitorais, mas como lugar onde as pessoas vivem, trabalham, circulam e enfrentam problemas cotidianos.
Isso, evidentemente, não lhe confere propriedade sobre a Administração Regional nem direito automático de indicar seu titular. O cargo não deve ser distribuído por endereço residencial, assim como não deveria ser distribuído por amizade pessoal ou conveniência eleitoral.
Mas há uma diferença entre reconhecer que ninguém tem exclusividade sobre a cidade e fingir que todas as relações com o território são iguais.
Uma coisa é um parlamentar de outra região receber votos no Guará e exercer legitimamente seu mandato em defesa dos eleitores. Outra, bem diferente, é transformar esses votos em argumento para reivindicar influência permanente sobre a Administração de uma cidade com a qual pode não manter o mesmo vínculo cotidiano.
É justamente aí que Dayse se destaca na discussão: sua relação com o Guará não precisa ser construída artificialmente para justificar uma fotografia, uma visita ou uma articulação de bastidores. É uma relação de moradia e convivência.
Eis o paradoxo: a cidade tem uma deputada que mora nela, mas a disputa pelos padrinhos parece depender muito mais da engenharia das alianças do que da proximidade real com a comunidade.
Dayse pode enfrentar a resistência de seu partido, o PSB, por integrar uma legenda de oposição ao atual governo e a um eventual governo Celina. Sua aproximação pessoal com a governadora, segundo as informações divulgadas, não eliminaria esse obstáculo.
A política tem dessas delicadezas: a amizade abre a porta, o partido segura a maçaneta e os acordos decidem quem entra. Enquanto isso, o morador assiste à cena tentando entender por que a discussão sobre a própria cidade precisa passar por tantos intermediários.
Não se trata de defender que Dayse receba privilégios por morar no Guará. Trata-se de reconhecer que sua condição de moradora e representante eleita merece ser considerada com seriedade, em vez de ser eclipsada por uma competição de padrinhos.
O Guará não precisa transformar Dayse em dona da cidade. Precisa apenas evitar que quem não mora nela se comporte como se tivesse recebido suas chaves.
Bia Kicis, a madrinha, e a política do sobrenome
A possibilidade de Bia Kicis apadrinhar a Administração Regional abre outro capítulo da novela. Artur Nogueira, atual administrador, poderia continuar no cargo, já que ajudou a coordenar a campanha da senadora eleita no Guará.
Por enquanto, não há indicação oficialmente confirmada. Estamos no terreno das especulações, onde os nomes circulam antes das decisões e os acordos são frequentemente comentados antes de serem assumidos publicamente.
Se Artur permanecer, será necessário explicar quais resultados justificam sua continuidade. Se sair, será importante conhecer os critérios que orientarão a substituição. O que não faz sentido é considerar a participação em campanha eleitoral uma espécie de certificado automático de aptidão administrativa.
Coordenar votos é uma atividade. Administrar uma cidade é outra. Uma exige articulação eleitoral; a outra demanda planejamento, gestão, diálogo, conhecimento técnico e capacidade de responder às necessidades da população.
Mas talvez estejamos sendo exigentes demais com o roteiro. Afinal, se a política conseguir transformar uma campanha em currículo, uma amizade em credencial e uma aliança em justificativa suficiente, para que apresentar um plano de trabalho?
Bastaria organizar uma reunião, distribuir os cumprimentos e escolher a cadeira. A cidade poderia esperar a próxima temporada para descobrir o que, afinal, será feito.
Hermeto e o feirão das administrações: leve quatro, negocie duas
A especulação envolvendo o deputado distrital reeleito Hermeto acrescenta um toque de criatividade à disputa. Segundo as informações divulgadas, ele teria sinalizado a Celina Leão que poderia abrir mão da influência sobre quatro administrações regionais — Candangolândia, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo I e Park Way — em troca do Guará e de Brazlândia.
Se essa hipótese corresponder às articulações de bastidores, estaremos diante de uma modalidade curiosa de matemática política: quatro administrações de um lado, duas do outro, e a população tentando descobrir em que momento sua cidade virou unidade de negociação.
O mercado imobiliário, ao menos, apresenta metragem, localização e valor estimado. No mercado do apadrinhamento, os critérios parecem ser mais sofisticados: votação, influência, alianças e capacidade de acomodar interesses.
Não estamos falando de uma troca formal de propriedades, evidentemente. As administrações regionais não pertencem aos parlamentares, e a escolha dos administradores cabe ao Executivo, dentro das regras institucionais. A ironia está na lógica atribuída à negociação: territórios que deveriam ser discutidos a partir das necessidades de suas populações aparecem no debate como peças de uma composição política.
Hermeto teria interesse antigo na Administração do Guará. É legítimo que um parlamentar defenda nomes e busque espaço para contribuir com a gestão pública. O problema é quando a conversa parece começar pela quantidade de administrações que alguém pode entregar ou reivindicar, em vez de começar pelos projetos que pretende executar.
O Guará não é brinde de promoção. Brazlândia não é bônus de fidelidade. Candangolândia, Núcleo Bandeirante, Riacho Fundo I e Park Way não são produtos de uma prateleira administrativa.
São cidades com comunidades, demandas e características próprias. Reduzi-las a peças de negociação pode até parecer eficiente para quem monta o tabuleiro, mas é uma forma bastante peculiar de esquecer quem vive em cima dele.
Os parlamentares alienígenas e o turismo eleitoral
Além de Bia Kicis e Hermeto, as especulações incluem Eduardo Pedrosa, Renata D’Aguiar, Izalci Lucas e Rodrigo Delmasso, cada qual com suas relações políticas, interesses ou possibilidades de articulação.
Izalci, segundo as informações divulgadas, teria preferência pela Secretaria de Ciência e Tecnologia, que comandou em governos anteriores. Eduardo Pedrosa poderia preferir continuar influenciando o Detran. Renata D’Aguiar também aparece entre os nomes citados como possível interessada no apadrinhamento. Rodrigo Delmasso, morador do Guará e próximo de Celina, é outro nome lembrado nos bastidores.
A expressão parlamentar alienígena cabe aqui como crítica política àquele representante cuja ligação cotidiana com a cidade parece menos evidente do que seu interesse em influenciar os cargos locais. Não é uma questão de endereço obrigatório, mas de coerência entre a atuação pública, o compromisso com a comunidade e a dimensão das pretensões políticas.
O roteiro do turismo eleitoral é conhecido: o político chega em época de campanha, visita os pontos estratégicos, aperta mãos, conversa com lideranças, conquista votos e segue a agenda. Depois da eleição, alguns descobrem uma vocação inesperada para administrar a cidade — especialmente quando existe uma cadeira disponível.
É uma espécie de turismo com direito a pretensões de propriedade: o visitante conhece a cidade por temporadas, mas, diante da oportunidade, manifesta interesse em decidir quem ficará responsável por ela.
A ironia é que o Guará não precisa de políticos que saibam localizar a Feira, a Administração Regional e o CAVE apenas quando o GPS eleitoral está ligado. Precisa de representantes que acompanhem os problemas da cidade mesmo quando não há campanha, fotografia ou negociação de cargo no horizonte.
Receber votos no Guará não é crime, favor ou concessão. O eleitor tem o direito de escolher candidatos de qualquer região. Mas transformar votação em título de propriedade política é outra conversa.
O voto dá mandato; não entrega escritura. A votação expressiva autoriza a representação, não a apropriação simbólica da cidade.
Eduardo Pedrosa, Izalci e os interesses sob medida
A lista de possibilidades também revela como a disputa pode se misturar às preferências individuais dos parlamentares.
Se um político deseja determinada secretaria e outro prefere um órgão específico, a Administração Regional do Guará pode acabar aparecendo como alternativa na composição de interesses. Nesse cenário, o cargo corre o risco de ser discutido menos pelo que exige e mais pela utilidade que oferece aos grupos que negociam.
O problema não é que parlamentares tenham preferências ou defendam espaços de atuação. O problema é a falta de transparência sobre os critérios que definem quem será escolhido e por quê.
Se o Guará é tão estratégico para tantos políticos, seria razoável esperar uma competição de propostas: quem apresenta o melhor planejamento para infraestrutura? Quem tem metas para os espaços públicos? Quem se compromete com a cultura, o esporte, o comércio e a mobilidade? Quem pretende estabelecer canais permanentes de diálogo com os moradores?
Mas a disputa noticiada parece privilegiar outra modalidade de currículo: quem conhece a governadora, quem ajudou na campanha, quem controla outras administrações e quem consegue reunir mais apoios para reivindicar a cadeira.
É uma pena que o cargo não venha acompanhado de um manual de transparência. Seria útil descobrir se, além da lista de padrinhos, existe também uma lista de compromissos.
E se Leandro Grass vencer? O apadrinhamento troca de partido, não necessariamente de endereço
Em um eventual governo Leandro Grass, as especulações apontam Gabriel Magno, deputado distrital reeleito, como possível articulador da indicação para o Guará. Miguel Edgar Alves, que coordenou campanhas na cidade, é citado como um nome que poderia receber apoio de Magno e do deputado federal Reginaldo Veras.
Roberto Policarpo, ex-deputado federal e ex-presidente do PT-DF, morador do Guará há cerca de duas décadas, também aparece como possível indicação pessoal de Grass. Ricardo Vale, por sua vez, poderia preferir outras áreas de atuação mais próximas de sua base eleitoral em Sobradinho.
Tudo isso permanece no campo das possibilidades divulgadas, não de decisões confirmadas.
Mas a hipótese é importante por um motivo: mostra que a discussão não se resume a um nome, a um partido ou a uma governadora. A lógica do apadrinhamento pode atravessar diferentes grupos políticos, adaptando-se às circunstâncias e trocando apenas os protagonistas.
Se o governo mudar, os nomes podem mudar. Se as alianças mudarem, os padrinhos podem mudar. Se a composição política exigir, os argumentos também podem mudar. O que não deveria mudar é a obrigação de explicar publicamente os critérios da escolha.
Não adianta trocar o retrato na parede e conservar o mesmo mecanismo nos bastidores. O Guará não precisa de uma revolução de padrinhos; precisa de uma mudança na forma de discutir sua Administração.
Caso contrário, a cidade continuará sendo apresentada como território de influência de quem estiver mais bem posicionado no governo da vez.
A pergunta que nenhum padrinho deveria evitar
Há uma pergunta que deveria ser dirigida a todos os nomes mencionados, independentemente de partido, votação, residência ou proximidade com o Executivo:
Qual é o projeto de vocês para o Guará — além de indicar quem vai sentar na cadeira?
Quais problemas serão tratados como prioridade? Que metas poderão ser cobradas? Como os moradores acompanharão as decisões? Qual será o compromisso com o orçamento, os equipamentos públicos, a infraestrutura e a participação comunitária?
Se houver respostas concretas, que sejam apresentadas. Se houver propostas, que sejam debatidas. Se houver experiência administrativa, que seja demonstrada por resultados verificáveis.
O que não basta é exibir uma lista de amizades, alianças e apoios eleitorais como se ela fosse um plano de governo.
E, nesse debate, Dayse Amarílio merece ser considerada pelo que é: uma parlamentar reeleita, moradora do Guará e representante que tem uma relação direta com a cidade. Isso não a torna dona da Administração, mas tampouco deveria permitir que sua ligação concreta com o território fosse tratada como detalhe secundário diante de articulações de gabinete.
A cidade não deve escolher entre uma madrinha e uma moradora como se estivesse selecionando integrantes de uma família política. Deve cobrar que qualquer nome indicado tenha qualificação, compromisso público, metas claras e disposição para prestar contas.
Guará não é herança, prêmio nem colônia parlamentar
No fim, a dança das cadeiras de 2027 pode produzir uma nova nomeação, uma mudança de grupo ou a continuidade do atual administrador. Até que haja uma decisão oficial, qualquer nome deve ser tratado como especulação.
Mas o debate já permite uma conclusão institucional: a Administração Regional não é propriedade de Bia Kicis, Hermeto, Eduardo Pedrosa, Renata D’Aguiar, Izalci Lucas, Rodrigo Delmasso, Gabriel Magno, Ricardo Vale ou de qualquer outra liderança citada. Nenhum parlamentar pode transformar a votação que recebeu em direito particular sobre a estrutura administrativa da cidade.
E o Guará, definitivamente, não precisa de um colonizador político a cada eleição.
Precisa de uma Administração que conheça a realidade local, tenha capacidade de gestão, dialogue com os moradores e apresente resultados. Precisa de representantes que entendam que a cidade não é uma extensão de seus projetos pessoais, nem uma moeda para negociar apoio a um governo.
Aos parlamentares alienígenas, fica o convite: em vez de disputar quem será o padrinho, demonstrem quem está disposto a assumir compromissos públicos com o Guará. Apareçam também quando não houver campanha, quando não houver cargo em disputa e quando a única recompensa possível for o reconhecimento dos moradores.
A Dayse Amarílio, por sua vez, não cabe atribuir um direito automático à Administração apenas porque mora na cidade. Mas sua presença na comunidade torna ainda mais evidente o contraste entre a ligação cotidiana com o território e a corrida de bastidores pelo controle de sua estrutura administrativa.
E aos moradores fica o direito de cobrar todos, sem exceção.
Porque o Guará não é uma criança órfã à procura de padrinho, um imóvel sem proprietário ou um lote político esperando ser loteado entre aliados.
É uma cidade com identidade, história e população própria. Os parlamentares podem até disputar a cadeira, mas não deveriam jamais confundir o direito de representar o Guará com a pretensão de serem seus donos.
Afinal, se a política local virou um concurso de padrinhos, talvez esteja na hora de alguém lembrar aos concorrentes que o Guará não precisa de tutela. Precisa de respeito.
E, convenhamos, para quem pretende administrar uma cidade inteira, essa não deveria ser uma exigência tão difícil de compreender.
Por Henrique Machado (jornalista, produtor cultural, DJ, ex-Conselheiro de Cultura do Guará e ex-Prefeito Comunitário da QE 40)

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